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Para ler no aniversário de Clarice

  • 18 de dez. de 2024
  • 2 min de leitura

Querida Clarice

Consegues ser um afago e um soco ao mesmo tempo, ou seja, não passo por ti. impune.

Te ler faz com que eu me leia, e me oportuniza aquele encontro com a alma, um encontro sem querer, desavisado, que me gera um turbilhão de emoções que escapa aos meus sensores e censores, estes senhores a quem damos méritos, medalhas e títulos pelos bons trabalhos prestados.

Sim, porque eu queria viver a vida passando por ela, “em branca nuvem, sem viver”, como dizia o poeta. E depois de ler um texto teu, Clarice, adentra em mim um senhor do tempo, um guardião de histórias e me tira a venda, me expõe as dores, aquelas maiores, aquelas que, de tão “dores”, pintei de rosa, branco, azul, vermelho, amarelo, fiz meu arco-íris pessoal e intransferível, mas não instransponível. Descobri que é possível passar por ele, sim.

Nosso primeiro encontro aconteceu há muito tempo, quando li “Uma Aprendizagem ou o Livro dos Prazeres”. Fiquei encantada e nunca soube avaliar o motivo do encantamento. Fui seduzida pelas letras, pelas palavras, pela forma escrita, e a profundidade do seu conteúdo me escapou, fugiu, ficou no ar, no esquecimento. Não acabei o curso que fazia na época. Claro que não. Tu havias marcado um encontro comigo no futuro, marcou na tua agenda e preferiste não me avisar. Acho que me conhecias, pois se tivesse sido avisada, provavelmente eu desmarcaria o encontro, obedecendo àquele padrão de autossabotagem emocional tão meu conhecido.

E foi então que mandaste G.H. para nosso encontro. Não vieste, mas te multiplicaste em G.H. Nos primeiros contatos com ela, fiquei muda. Por covardia, por medo, por vergonha, pelo impacto de cada revelação dentro de mim.

G.H. diz: “... esse esforço seria facilitado se eu fingisse escrever para alguém”. “Como ela está certa!”, pensei. Em algum momento anterior a isto, escrevi cartas para mim mesma e dois lados meus se revelaram um ao outro, influenciados pela tranquilidade da crença de estarem escrevendo a um desconhecido, com quem seus segredos estariam a salvo.

Outra fala de G.H.: “... É proibido dizer o nome da vida. E eu quase o disse.... o que seria a destruição dentro de mim de minha época”.  Calei-me novamente, como se falando estivesse traindo G.H., pois o que sairia de mim poderia ser a própria vida, não para viver fora, mas para morrer dentro.

Obrigada, Clarice, por me convocar para estes encontros. G.H. é fantástica, mordaz e, como tu, não mede palavras para nos transportar do confortável estado da ignorância para o desconforto da busca pelo conhecimento, de mim, de dentro, daquilo que me custa tanto saber.

Sempre gostei de escrever cartas. Como isto ficou fadado a ser algo do passado, podendo ser considerado até “ultrapassado”, escrevo para Clarice (a Lispector), que não vai me responder, por carta pelo menos, mas cuja resposta posso sonhar do meu jeito.

E como ela faria aniversário ontem, achei que era uma boa maneira de homenageá-la.

 

 

 



 
 
 

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